Falar em público para cientistas

Quando pensamos em divulgar e comunicar ciência raramente pensamos em falar em público. No entanto, grande parte da comunicação de ciência acontece oralmente. Como cientista e comunicadores de ciência passamos muito tempo a falar sobre ciência. Em congressos, em apresentações, em atividades de campo, em visitas guiadas a museus ou centros de ciência, em talks, em cafés com ciência, e até em conversa informais com familiares e amigos.

Comunicar ciência sempre foi um desafio, mas hoje, na era do pos-facto e do facto alternativo o desafio é ainda maior e mais importante. Transmitir informação, partilhar factos e conhecimento não é suficiente, precisamos atentar na forma como transmitimos essa informação, na forma como a audiência entende o que dizemos. Uma apresentação oral é mais do que apenas aquilo que temos a dizer. É a forma como nos apresentamos enquanto o dizemos, o tom em que falamos, aquilo que os nossos ouvintes pensam sobre nós enquanto nos ouvem. Como comunicadores de ciência devemos ter isso em conta, temos que nos focar na forma para além da mensagem.

Por isso partilho algumas dicas que julgo importantes ter em conta na preparação de apresentações orais.

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1-Organize a mensagem em função da audiência

Esta é, para mim, a dica mais importante no que toca a preparar comunicações (orais ou não).

You have to get out of yourself and into the audience.

Esta frase de Malcolm Love resume a importância de nos focarmos na audiência. Eu gosto de simplificar, dizendo it’s not about you. Não se esqueça disto, não é sobre si, é sobre a audiência. 

Atentar nesta frase mudou a forma como vejo a comunicação de ciência. É comum estarmos demasiado focados naquilo que nós pensamos sobre o assunto, na importância que nós achamos que aquele assunto tem. Em vez disse deveríamos focar-nos na audiência. Questões como De que forma a audiência vai beneficiar com o que estou a dizer? ou De que forma posso relacionar este tema com a vida da pessoas? ou Até que ponto este assunto é relevante para esta audiência em particularsão mais importantes do que Como posso fazer a audiência compreender o meu ponto de vista? 

2-Esqueça o power point

O power point pode ser uma excelente ferramenta para nos auxiliar a transmitir informação factual, dados, gráficos, estatísticas, ou imagens que complementem a nessa mensagem. No entanto, muitas vezes este acaba por ser um elemento distractor. Retira o foco do orador e distrai, tanto a audiência com o orador.

Quem nunca passou metade de uma apresentação de costas voltadas para a audiência enquanto tentava ler os números de um gráfico, ou todos os pontos de uma enumeração de dados que levante o dedo. Não preciso de poderes telepáticos para saber que não há muitos dedos levantados desse lado.

De facto, usar o power point acaba muitas vezes distrair o orador da mensagem principal, por criar ansiedade e hesitações ao orador e por aborrecer a audiência.

Sei o que está a pensar “eu preciso do  power point para transmitir toda a informação que quero”. É exatamente aqui que reside o problema. Não precisa. Lembre-me que falar com o público não é a mesma coisa de que falar com cientistas. O publico não está tão interessado em factos, dados e estatísticas como julga. Para não cientistas essa informação, embora interessante, é aborrecida. O publico comum quer ser surpreendido,  quer ser maravilhado pela a ciência.

3-Conte histórias relevantes

Como disse acima, transmitir conhecimentos não é suficiente para comunicar ciência de forma eficaz. É necessário criar uma conexão com a audiência, causar empatia. Uma ótima forma de o fazer é contar histórias. Podem ser histórias pessoais ou não, embora na minha experiência histórias pessoais funcionem particularmente bem. Pode falar dos problema que encontrou ao desenvolver o trabalho, daquela peripécia engraçada que lhe aconteceu no campo enquanto fazia recolha de dados.

4-Use metáforas

Transmitir conhecimento técnico para uma audiência não especialista é difícil. É extremamente difícil para um não cientista compreender processos que acontecem à nano-escala, ou que demoram milhões de anos a decorrer. É por isso importante desconstruir a ciência para que seja de mais fácil compreensão. Metáforas são uma boa técnica. Prefira metáforas simples, que recorram a exemplos do dia-a-dia para explicar processos complexos. Por exemplo, em tempos conheci uma professora de ciências que usava uma laranja para explicar a constituição das camadas terrestres aos seus alunos, comparando a casca da laranja com a crosta da terra.

5-Pratique, pratique, pratique

Acho que não é exagero dizer que a maioria de nós não pratica as suas apresentações orais. Não o fazemos por várias razões. Porque estamos convencidos que saber muito de um assunto é suficiente para conseguirmos falar dele de forma eficiente, porque ao longo das nossas carreiras fazemos tantas apresentações que achamos que já não precisamos de praticar e porque não fomos treinados para isso. Somos ensinados, desde a universidade, a preparar meticulosamente as nossas apresentações, reunir todos os dados, resumir a informação em gráficos, tabelas e esquemas, antecipar todas as potenciais perguntas da audiência, mas não a ensaiar, a praticar a apresentação.

O meu treino como toastmaster ensinou-me a ensaiar sempre antes de me apresentar perante uma audiência. Estruturar a mensagem como uma história, com introdução, desenvolvimento e conclusão, focar-me em 2 ou 3 pontos principais e selecionar os momentos-chave em que quero causar uma reação na audiência.

Este exercício tem trazido diversos benefícios, por várias razões. Ensaiar permite-me polir a mensagem, perceber onde estou a ser redundante, onde estou a transmitir demasiada informação, ou onde me estou a perder em tangentes que pouco interessam ao público. Por outro permite-me também melhorar a entrega, fazer a minha apresentação de forma mais fluida, com menos hesitações. Mais ainda, ter a apresentação bem ensaiada e preparada diminui a ansiedade e nervosismo que todos, independentemente de quão experientes somos, sentimos quando subimos a um palco.

O ideal será mesmo treinar em frente a outras pessoas, amigos ou familiares, que lhe deêm opinião sincera sobre quais são as partes mais interessantes e as mais enfadonhas, ou que lhe chame atenção para pequenos tiques ou hesitações que distraem os ouvintes.

6- Termine com uma mensagem forte

A forma como terminamos a nossa apresentação, aquilo a que os anglosaxónicos chama take-home message, é extremamente importante.

O ouvinte não vai recordar tudo o que foi dito numa palestra de 10 ou 20 minutos. Em vez disso vai fixar um ou dois momentos, frases-chave que na sua memória serão o resumo de toda a palestra.

Mais uma vez pergunto, quem nunca falou durante minutos a fio sobre um assunto, abordou questões que considerava importantíssimas para no final ver o ouvinte fixar-se num pormenor que tem pouca ou nenhuma importância tinha?

Uma mensagem final forte e impactante assegura que pelo menos um dos momentos que o ouvinte leva na memória contém a informação que consideramos mais importante, a mensagem-chave da nossa apresentação.

Há muito mais dicas, truques, técnicas que podemos aprender para melhorar as apresentações orais, mas estas parecem-me um bom ponto de partida. Boas apresentações!

Créditos da foto: https://skitterphoto.com/photographers/9/rudy-van-der-veen
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